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Travesti sem-teto queimada em ataque no Recife tem segundo braço amputado

A travesti foi atacada no momento em que dormia sob uma barraca de lona no Cais Santa Rita, no centro do Recife (PE), na madrugada do dia 25 de junho.

01/07/2021 17h24
Por: Redação Fonte: Folha
Travesti sem-teto queimada em ataque no Recife tem segundo braço amputado

Seis dias depois de ter parte do corpo incendiado e precisar amputar um braço atingido por queimaduras de terceiro grau, a travesti sem-teto Roberta Nascimento da Silva, 32, perdeu o segundo membro nesta quarta-feira (30).

A travesti foi atacada no momento em que dormia sob uma barraca de lona no Cais Santa Rita, no centro do Recife (PE), na madrugada do dia 25 de junho.

Um adolescente de 17 anos é suspeito de ter jogado álcool no corpo da vítima e ateado fogo com a intenção de matá-la, segundo as investigações da Polícia Civil. Ele foi apreendido horas depois do crime e cumpre medida socioeducativa em uma unidade para jovens em conflito com a lei.

Já Roberta batalha pela vida no Hospital da Restauração, unidade pública vinculada à Secretaria de Saúde de Pernambuco que possui um centro para tratamento de queimados.

Com 40% de seu corpo comprometido — muitos dos ferimentos provocados por queimaduras de segundo e terceiro graus —, os braços da vítima foram as partes mais afetadas pelas chamas.

O Hospital da Restauração disse, por nota, à Folha de S.Paulo que as queimaduras comprometeram a vascularização dos braços da vítima, que entraram em processo de necrose.

Sem apresentar recuperação, a equipe médica fez a primeira amputação do braço esquerdo da travesti no último sábado (26). O corte do membro afetado foi feito até a altura do ombro.

Na tarde desta quarta, foi a vez do braço direito, amputado até o cotovelo. Ainda de acordo com o hospital, Roberta se recupera das cirurgias na UTI (Unidade de Terapia Intensiva).

A previsão é que ela seja transferida nos próximos dias para o Centro de Tratamento de Queimados do hospital para seguir com o tratamento previsto. A paciente, segundo o hospital, está consciente e sabe dos motivos que levaram às amputações. Ela é acompanhada por uma equipe de psicólogos e assistentes sociais.

E também por ativistas da causa LGBTQIA+, que disseram ter sido necessária uma intervenção junto à diretoria do Hospital da Restauração para garantir a internação correta à paciente.

Assim que foi resgatada por uma ambulância do Samu (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência), a travesti foi perguntada como se chamava.

Com muita dificuldade, conseguiu dizer o nome de registro, e acabou sendo levada para a ala masculina do hospital. "Quando cheguei ao hospital, ela estava na ala masculina. Prontamente conversamos com ela e intervimos na situação", disse Robeyoncé Lima, codeputada do PSOL de Pernambuco.

O Hospital da Restauração informou que ao tomar conhecimento do fato fez as mudanças no cadastro de internação e colocou a travesti na ala feminina conforme a identidade de gênero dela.

A recuperação da travesti também será importante para se saber a versão dela sobre o ataque e qual relação tinha com o adolescente apontado como autor do crime.

Segundo a Polícia Civil, o adolescente foi "autuado por ato infracional análogo à tentativa de homicídio qualificado". Após avaliação do Ministério Público, o jovem foi encaminhado para a Unidade de Atendimento Inicial, da Secretaria de Criança e Juventude.

A Promotoria também diz apurar se houve motivação transfóbica no ataque à travesti. "Estamos acompanhado, na qualidade de órgão de apoio, o ato infracional semelhante a transfeminicídio, na modalidade tentada e qualificado pelo motivo torpe, perpetrado em desfavor da mulher trans identificada como Roberta, inclusive considerando as repercussões nas áreas de cidadania, direitos humanos e infância e juventude", disse Carolina Moura, promotora que coordena o Núcleo de Direitos LGBTQIA+ da instituição.

Em resposta ao prefeito do Recife, João Campos (PSB), que disse numa rede social acompanhar o caso de Roberta por meio de sua Secretaria de Desenvolvimento Social, a Antra (Associação Nacional de Travestis e Transexuais) afirmou que "o estado de Pernambuco está entre os dez mais violentos e com os maiores dados de assassinatos de pessoas trans do Brasil, com muitos casos na capital".

"Precisamos de políticas específicas para enfrentar essa violência que segue negligenciada", disse a entidade.

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